
E pronto. Este blogue fica por aqui.

Numa joalharia qualquer(não importa agora qual), antes da hora do almoço (logo, teor de álcool no sangue no limiar da admissibilidade), eis que entram duas senhoras dos seus cinquenta anos que pedem desculpas à empregada pela pergunta "tolinha" que vão fazer e perguntam se existem alianças para divorciado/as. Acrescentam em tom de desculpa que enquanto casadas nunca usaram, mas que agora...
A empregada responde que sim, que existem, mas que não têm.
Eu, incrédula, fui ver e sim, existem mesmo. Símbolo de quê? Talvez de regresso ao mercado...
"Desligo o telefone com uma sensação estranha e desconhecida. Não haja dúvida que o tempo nos faz distanciar daqueles que tiveram tanto significado na nossa vida ao ponto de os tornar quase irreconhecíveis. Como tu. Não reconheci o número e nem a tua voz. Incrível, não é? Foram tantas as vezes que o marquei e tantas as vezes que falei contigo horas a fio! Sabia os dois de cor. Hoje não. Nem um nem outro. E sou bem mais feliz assim, francamente.
Tinhamos chegado ao fundo do poço tanto tempo antes de pormos realmente o ponto final à história. E o ponto final foi posto quase noutra vida. Por isso não consigo compreender o motivo do telefonema de hoje nem o "só para saber o que é feito de ti". Não só não o consigo compreender como não consigo sentir o mesmo. Quero eu lá bem saber o que é feito de ti?! Não é raiva nem depeito nem nada disso. Não fazes parte do meu mundo, apenas isso. Quando muito fazes parte da história, como uma casa onde vivi, de onde mudei e a cuja rua nunca tive vontade de voltar. Pode ser falta de sensibilidade ou de nostalgia. Mas cá no fundo, parece-me que é mesmo ausência de significado. Porque, para mim, as coisas só têm significado enquanto duram. Tal como as pessoas. Não fico agarrada ao que senti por ti. Se acabou é porque não era lá grande coisa, digo eu. Podia ter dado lugar a um outro tipo de sentimento qualquer, mas não. (In)Felizmente eu não funciono assim.
Este telefonema durou segundos. Não me apetece partilhar contigo o meu presente nem manter conversa de circunstância. Como não me interessa minimamente saber o que é feito de ti. Não te desejo mal. Nem bem. A desejar-te alguma coisa, apenas que nunca mais tenhas vontade de me ligar."
Afinal, não é o sonho que comanda a vida, não. O que comanda a vida é o que, figuradamente, chamamos coração. O coração, esse que anda por aí nos pescoços em fios ou nos pulsos em pulseiras, cravado nas árvores com dois nomes a jurarem partilhar a vida eternamente, esse é que faz a diferença. Símbolo dos afectos, das uniões, dos desejos, quando não está bem, nada mais está bem. Pode ter-se mil viagens de sonho, mil jantares com amigos, mil músicas novas que nada disso tem significado nenhum. Falta algo. Melhor, falta alguém. Alguém que preencha esse espaço e esse tempo, que nos transporte para outra dimensão, a quem nos entreguemos sem medo, só porque sim.
Quando apareceram os telemóveis, toda a gente achou uma ideia brilhante ao ponto de só se ser gente tendo, pelo menos, um telemóvel. Estar contactável a toda a hora, ligar só porque sim e poder enviar sms a dizer nada tornou-se um hábito vital para toda a gente. Mal se consegue recuar aos tempos em que era preciso chegar a casa para poder pôr a conversa em dia, em que não havia hipótese de se desculpar de um atraso a um encontro ou de escrever "amo-te" em vez de o dizer olhos nos olhos. Tornámo-nos todos telemóvelodependentes. Um dia em que se esqueça o telemóvel em casa é um dia em que nos falta alguma coisa, em que não fazemos parte do mundo e em que o nosso pequeno mundinho que nele está armazenado ficou ali abandonado.

