Ontem, ao ouvir uma amiga recém chegada aos 30, fiquei a pensar que realmente muita coisa mudou nas últimas décadas no lado feminino. E ainda bem.
Dantes, as mulheres tinham o destino traçado, por assim dizer. O máximo que ambicionavam era mesmo casar e ter filhos. Com sorte, uma profissão que lhes ocupasse o tempo no intervalo de serem mulheres e mães. Acima de tudo estava o marido que tratavam, tirando a líbido sexual que reprimiam ou desconheciam, como mais um de quem tinham de tratar. Ele era fazer o partinho preferido dele todos os dias, ter a casa num brinco, aturar o mau humor de cara alegre, não emitir opiniões contrárias à dele que discussões não se querem e ele é que sabe, fazer esticar o dinheirinho que ele entregava e nem perguntar para onde ía o que não era entregue.
Hoje, mudou tudo. As mulheres que hoje têm 30 são bem diferentes das que naqueles tempos tinham 30. Para começar, foram educadas para a igualdade dos sexos: não há cá ele é que sabe, nem ele é que manda; mandam os dois porque sabem os dois. Estudaram tanto ou mais que eles, viram tantos ou mais filmes que eles, viajaram tanto ou mais que eles. Conviveram com tantos deles e delas, conhecem as experiências de vida deles e delas. Aprenderam que não têm de comer e calar. Emitem opiniões tanto ou mais construtivas que as deles. Sustentam-se. Compram os carros e as casas como eles. Vão ao supermercado e passam horas ao telefone umas com as outras. Só os aturam se querem e quando querem. Não estão com ninguém por obrigação e não gostam de responder a interrogatórios porque também não os fazem. As lides domésticas são para ser partilhadas com eles. Se eles não sabem, aprendem, que elas também aprenderam sozinhas, vendo e fazendo, como tudo.
Tornam-se mais exigentes. Não estão para qualquer coisa. Sobretudo, não estão para qualquer um. E isto, que, à primeira vista, é o mais acertado, torna-se um problema que só se desabafa com elas, as outras, as iguais. Onde é que tanta exigência vai levar?
É que as mulheres de 30 que estão sozinhas por opção, sentem a pressão dos outros que não acham normal ainda não estarem casadas e rodeadas de filhos, que as olham de lado porque a explicação só pode ser um grande mau feitio. Duvidam de si mesmas e questionam a ingratidão do ego que não soube dar valor a quem já passou e que até tinha algumas qualidades, mesmo que não as suficientes para ficar. Sentem o relógio biológico em contagem descrescente, a vontade de ser mães, mas a vontade de arranjar um pai certo. Pesam as qualidades e os defeitos de quem se aproxima e não hesitam em mandar à vidinha quem as chateie muito. Chateiam-se consigo mesmas por causa disso.
Não sofrem porque se anulam, como dantes. Mas sofrem porque não conseguem sentir o que era suposto sentirem.
E eu cá acho que é só tudo uma questão de mais um bocadinho de tempo. Que os 30 de hoje não são os 30 de antigamente. E que a exigência só torna as coisas mais sólidas. E que o relógio biológico vai ser ajudado pela ciência. E que no final de contas, vai tudo correr bem.
(À A.)
2 comentários:
olha querida
enfiei a carapuça até ao fundinho
Querida, isto é tudo muito bonito, mas são raros os casais que assim funcionam, como são raras as boas possíveis mães e ainda mais raros os possíveis pais.
Estamos ainda num mundo do faz de conta em que as regras antigas ainda têm muita expressão e força.
Quem me dera que o mundo fosse tão equilibrado quanto o que dizes, mas sei que não é assim.
De qualquer forma, há uma boa notícia: os 40 de hoje são os 30 de ontem. Portanto há toda uma década a mais para poder viver como queremos. E depois logo se verá.
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